
No outro dia, o Ricardo entrou pela primeira vez em Khalifa City A. Deu-me boleia ate casa e entrou no grupo restrito dos que ousaram passar mais de dois minutos por estas bandas.
Para ele, foi o desfazer (ou tera sido antes a confirmacao?) de um mito. Um territorio inospito, um buraco negro algures nos arrabaldes, a linha da frente.
A Siberia ca do sitio, para onde sao deportados os expatriados a procura de casas a precos ligeiramente menos inaceitaveis.
Entenda-se desde ja que a substituicao da expressao “menos inaceitaveis” por “aceitaveis” resultaria num portugues mais limpo e cuidado, mas induziria em erro o leitor. Afinal, as palavras “casa”, “preco”, “Abu-Dhabi” e “aceitavel” nunca poderao coexistir numa frase sem a companhia da palavra “nao”, o prefixo “in” ou mesmo a expressao “tas a sonhar, ou que?!”.
Alem disso, um portugues limpo e cuidado nunca podera ser utilizado convenientemente num texto sobre Khalifa City A.
Este simpatico bairro, que recebe o nome do nosso querido presidente Khalifa bin Zayed al Nayan, e alias tudo menos limpo e cuidado.
Com uma dimensao de cerca de 4 por 6 km (tentem desenhar um rectangulo desses em cima de Lisboa e ficarao com uma ideia), consiste muito simplesmente em inumeros quadradinhos definidos por ruas e rotundas sem passeios. Uns quadradinho tem casas, outros quadradinhos tem casas em obras e os restantes quadradinhos tem areia. Eh esta que, tocada a vento, cria o ambiente acolhedor de Khalifa City A.
Tal como o resto da cidade, eh perfeitamente plana. Nao ha uma arvore. Aqui e ali vao sendo semeadas as villas: moradias de dimensao XL a XXXL, divididas sabe-se la como em apartamentos e partilhadas por europeus, americanos e australianos. Ha uma fila de 18 predios de 4 andares, com lojas no res-do-chao. E sao estas as nossas unicas lojinhas. Tambem temos uma bomba de gasolina e um café (nos tais predios, claro), com uma placa na montra: abre brevemente! Ha 2 ou 3 escolas e infantarios e uma clinica veterinaria.
Para a beleza do povoado contribui unica e exclusivamente o fantastico espectro cromatico (hei-de averiguar oportunamente da validade desta expressao) dos taipais das obras.
Ha volta de cada quadradinho de terreno, tudo muito direitinho, espetam-se postes de pinho e faz-se uma vedacao com chapas de zinco. Depois, durante um dia inteiro, dois artistas pintam a trincha cada chapa.
Para nossa satisfacao, ha um esforco crescente para transformar cada uma destas vedacoes numa expressao artistica do mais alto gabarito. Se quase todas as casas sao cremes ou amarelas (por causa das tempestades de areia, claro esta), as coloridas vedacoes das obras tornam Khalifa City A num verdadeiro arco iris. Assim, para minha casa por exemplo, eh facil: quem vem dos predios (so ha uma fila deles, certo?), corta a esquerda depois dos taipais azuis e brancos.
Quando essa obra acabar, la terei de mudar a indicacao!
As obras trazem a Khalifa City A os seus restantes habitantes. Cada obra tem a sua volta as barracas onde vivem os operarios indianos e paquistaneses. E quem entra em Khalifa City A julgara que apenas estes ali vivem, pois apenas eles andam pelas ruas. Os outros, obviamente, tem carro e nao andam a pe!
Durante os tempos em que ainda nao tinha a carta de conducao, tive oportunidade de partilhar com alguns paquistaneses vizinhos a caminhada ate as lojas dos tais predios. Os instantes que se seguem a essas conversas sao importantes momentos de reflexao: se ha primeira vista ha tantas diferencas, a verdadeira conclusao so pode ser uma. Somos todos iguais. Iguaizinhos.
E no fim desta breve mas justa descricao de Khalifa City A, questionar-se-a certamente o estimado leitor: mas porque raio Khalifa City A?
Meus amigos, o presidente aqui eh um tipo importante: existe a Khalifa City A e a Khalifa City B, e entre as duas ha um vazio de 6km de areia, onde sera construida a Khalifa City C.
O irmao, coitado, so teve direito a vizinha Mohamed bin Zayed city.
Khalifa City A nao eh para todos.
Saude da boa e ate breve, Inshalla!
PS: Na imagem, a amarelo, a villa de um dos tres tugas que conheco em Khalifa (eu proprio).
Para ele, foi o desfazer (ou tera sido antes a confirmacao?) de um mito. Um territorio inospito, um buraco negro algures nos arrabaldes, a linha da frente.
A Siberia ca do sitio, para onde sao deportados os expatriados a procura de casas a precos ligeiramente menos inaceitaveis.
Entenda-se desde ja que a substituicao da expressao “menos inaceitaveis” por “aceitaveis” resultaria num portugues mais limpo e cuidado, mas induziria em erro o leitor. Afinal, as palavras “casa”, “preco”, “Abu-Dhabi” e “aceitavel” nunca poderao coexistir numa frase sem a companhia da palavra “nao”, o prefixo “in” ou mesmo a expressao “tas a sonhar, ou que?!”.
Alem disso, um portugues limpo e cuidado nunca podera ser utilizado convenientemente num texto sobre Khalifa City A.
Este simpatico bairro, que recebe o nome do nosso querido presidente Khalifa bin Zayed al Nayan, e alias tudo menos limpo e cuidado.
Com uma dimensao de cerca de 4 por 6 km (tentem desenhar um rectangulo desses em cima de Lisboa e ficarao com uma ideia), consiste muito simplesmente em inumeros quadradinhos definidos por ruas e rotundas sem passeios. Uns quadradinho tem casas, outros quadradinhos tem casas em obras e os restantes quadradinhos tem areia. Eh esta que, tocada a vento, cria o ambiente acolhedor de Khalifa City A.
Tal como o resto da cidade, eh perfeitamente plana. Nao ha uma arvore. Aqui e ali vao sendo semeadas as villas: moradias de dimensao XL a XXXL, divididas sabe-se la como em apartamentos e partilhadas por europeus, americanos e australianos. Ha uma fila de 18 predios de 4 andares, com lojas no res-do-chao. E sao estas as nossas unicas lojinhas. Tambem temos uma bomba de gasolina e um café (nos tais predios, claro), com uma placa na montra: abre brevemente! Ha 2 ou 3 escolas e infantarios e uma clinica veterinaria.
Para a beleza do povoado contribui unica e exclusivamente o fantastico espectro cromatico (hei-de averiguar oportunamente da validade desta expressao) dos taipais das obras.
Ha volta de cada quadradinho de terreno, tudo muito direitinho, espetam-se postes de pinho e faz-se uma vedacao com chapas de zinco. Depois, durante um dia inteiro, dois artistas pintam a trincha cada chapa.
Para nossa satisfacao, ha um esforco crescente para transformar cada uma destas vedacoes numa expressao artistica do mais alto gabarito. Se quase todas as casas sao cremes ou amarelas (por causa das tempestades de areia, claro esta), as coloridas vedacoes das obras tornam Khalifa City A num verdadeiro arco iris. Assim, para minha casa por exemplo, eh facil: quem vem dos predios (so ha uma fila deles, certo?), corta a esquerda depois dos taipais azuis e brancos.
Quando essa obra acabar, la terei de mudar a indicacao!
As obras trazem a Khalifa City A os seus restantes habitantes. Cada obra tem a sua volta as barracas onde vivem os operarios indianos e paquistaneses. E quem entra em Khalifa City A julgara que apenas estes ali vivem, pois apenas eles andam pelas ruas. Os outros, obviamente, tem carro e nao andam a pe!
Durante os tempos em que ainda nao tinha a carta de conducao, tive oportunidade de partilhar com alguns paquistaneses vizinhos a caminhada ate as lojas dos tais predios. Os instantes que se seguem a essas conversas sao importantes momentos de reflexao: se ha primeira vista ha tantas diferencas, a verdadeira conclusao so pode ser uma. Somos todos iguais. Iguaizinhos.
E no fim desta breve mas justa descricao de Khalifa City A, questionar-se-a certamente o estimado leitor: mas porque raio Khalifa City A?
Meus amigos, o presidente aqui eh um tipo importante: existe a Khalifa City A e a Khalifa City B, e entre as duas ha um vazio de 6km de areia, onde sera construida a Khalifa City C.
O irmao, coitado, so teve direito a vizinha Mohamed bin Zayed city.
Khalifa City A nao eh para todos.
Saude da boa e ate breve, Inshalla!
PS: Na imagem, a amarelo, a villa de um dos tres tugas que conheco em Khalifa (eu proprio).
6 comentários:
Agora fiquei curiosa para conhecer Khalifa City B ;)
E pergunto eu, Johhny Boy, valerão os petrodólares (ou lá o que é) uma vida nesse tipo de cenarios? Não é uma pergunta a criticar a tua opção de vida, mas antes a de avaliar uma das futuras possibilidas minhas...
Abraço!
Man!tudo fino?espero que sim... olha, a resposta a tua pergunta eh muito facil: sim, claro, desde que alteres uma palavra fundamental na tua pergunta: "vida". Ou seja, os petrodolares nao justificam de facto uma "vida" aqui, mas certamente fazem deste sitio o local ideal para uma rica "passagem".
Todos os que aqui vem parar ficam satisfeitos, dependendo naturalmente da capacidade de encaixe de cada um nas diversas agruras a que por aqui estamos sujeitos. Mas quem aguenta um salario em Portugal esta mais do que preparado para aguentar o po do deserto! (frase audaz e provocatoria que podera suscitar comentarios ferozes!)
Alguem que vive em Londres e vai a concertos do melhor todas as semanas (sim, tenho seguido com inveja a distancia!) iria sem duvidar sentir um choque perante a "oferta" cultural do deserto, mas quem quiser mandar a fava duas ou tres comodidades enquanto aproveita outras e vai juntando umas avelas para o inverno, este eh o sitio que eu e outros tugas que aqui conheci apelidamos simplesmente de IDEAL. Nao sei o que outros acharao disto se ca vierem parar, mas eu recomendo fortemente. Quer queiramos quer nao, pura e simplesmente pelos petrodolares, mas ha outras coisas boas tb (como viver num dos paises mais multi-culturais e seguros do mundo). Entre fazer sacrificios em PT ou faze-los aqui, escolho aqui. PT nao ha-de fugir, e uns aninhos passam num instante.
Ficaste picado? Duvido! ;)
Mas vai dizendo coisas, estou esperancado em trazer para ca mais uns tugas, assim que a crise passar... Quem sabe nao seras o proximo Ricardo a entrar em Khalifa City A! :)
forte abraco!
Olha que até nem tiveste muito mal em defesa da causa, digo-te já. De facto seria, pelo menos para já, um choque cultural bastante grande. Confesso que me encontro no meu habitat natural no que a isso concerne, mas chega o dia em que se tem de guardar uma avelãs para o inverno, como dizes bem... Não está, para já, nos meus planos mais próximos. Mas se seguir o rumo que pretendo, se calhar vai-me calhar na rifa. Enfim, vejamos. Mas na altura em que for aí parar (caso vá), falatará tanto ainda que serei com certeza o Ricardo a entrar em Khalifa City T :)
Grande abraço!!
:) E nessa altura ja teras por ca uma "sucursal" do Louvre e outra do Guggenheim, portanto ja nao te vai custar tanto... E as avelas, essas, ca hao-de estar a tua espera!
E ja agora, vem um pouco mais cedo, para Khalifa City R! Quando fizerem a J eu tb mudo para la! :)
abraco!
hihihih grande joão!, pá estou a ver que é bastande ciclavel :P hihih tens que postar mais umas coisas com umas pelingras para a malta ver ai a coisa :P fiquei curioso...
quanto aos teus argumentos para ficares por aí, são mais que fortes. não há nada a dizer... espero que aproveites ao maximo aí a coisa e, depois então, que venhas com outros planos apra a europa se for essa a tua vontade ;)
força aí amigo!!! recebe aí um abraço!
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